Confiar é um ato diário (mesmo quando dizemos que não)
- Paula Neto

- 29 de jan.
- 2 min de leitura
“Não confies em ninguém.” A frase repete-se como um mantra defensivo, quase como se a desconfiança fosse sinónimo de maturidade emocional. Mas será mesmo?
Se observarmos a vida com honestidade, percebemos rapidamente que confiar não é uma opção — é uma condição da existência humana.
Todos os dias, conscientemente ou não, confiamos.
Os operadores de recolha de resíduos confiam no motorista enquanto seguem nos estribos, em movimento, entre paragens, trânsito e imprevistos. Confiamos que quem vem no sentido contrário respeitará a linha contínua. Confiamos que o médico sabe o que faz, que o alimento que compramos é seguro, que o prédio onde entramos não vai ruir.
A confiança está tão entranhada na vida quotidiana que só a notamos quando falha.
A confiança como base invisível da sociedade
Do ponto de vista sociológico, a confiança é considerada um pilar estrutural das sociedades funcionais. Niklas Luhmann, sociólogo alemão, defendia que a confiança reduz a complexidade do mundo. Sem ela, viveríamos paralisados, a avaliar cada passo como uma ameaça potencial.
Já a psicologia mostra-nos que a confiança não é ingenuidade, mas sim um mecanismo adaptativo. O cérebro humano foi desenhado para cooperar. Estudos em neurociência social demonstram que a cooperação ativa circuitos associados à segurança, pertença e bem-estar, enquanto a desconfiança constante mantém o sistema nervoso em estado de alerta crónico.
Ou seja: desconfiar o tempo todo tem um custo emocional e fisiológico real.
O erro não está em confiar. Está em não saber como confiar.
Aqui reside um ponto essencial do meu trabalho em life coaching: não se trata de confiar cegamente, mas de confiar com consciência.
Confiar não é entregar o poder pessoal. É alinhar perceção, limites e responsabilidade.
Muitas pessoas dizem “não confio em ninguém”, quando na verdade o que viveram foi:
traição sem integração emocional,
expectativas não comunicadas,
ausência de limites claros,
ou desconexão da própria intuição.
A ferida não vem da confiança. Vem da quebra de alinhamento interno.
Confiança, responsabilidade e FLOW
Na metodologia FLOW, a confiança está intimamente ligada ao fluxo da vida.
Quando confiamos:
o corpo relaxa,
a mente clareia,
a energia flui.
Quando não confiamos:
contraímo-nos,
controlamos,
resistimos.
Mas atenção: confiar não é abdicar da responsabilidade pessoal. Tal como o operador confia no motorista, mas mantém o corpo atento, firme e presente. Tal como confiamos no trânsito, mas continuamos a olhar, a antecipar, a agir.
A verdadeira confiança é ativa, não passiva.
Confiar é um treino interno
Confiar começa sempre dentro.
Confiar na própria capacidade de lidar com o que vier. Confiar na leitura dos sinais. Confiar que, mesmo quando algo falha, há aprendizagem, integração e crescimento.
Quando uma pessoa fortalece a relação consigo mesma, a confiança nos outros deixa de ser um risco e passa a ser uma escolha consciente.
E isso muda tudo:
nas relações,
no trabalho,
na forma como habitamos os espaços,
na forma como conduzimos a vida.
Talvez a pergunta certa não seja “em quem posso confiar?”
Mas sim:
“Estou alinhada comigo ao ponto de confiar no meu discernimento?”
Porque quando há alinhamento interno, a confiança deixa de ser um salto no vazio — e torna-se um passo natural no caminho.
E a vida, essa, continua a pedir-nos todos os dias exatamente o mesmo:
presença, consciência… e confiança suficiente para seguir em frente.
Em flow,
Paula




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