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Confiar é um ato diário (mesmo quando dizemos que não)


“Não confies em ninguém.” A frase repete-se como um mantra defensivo, quase como se a desconfiança fosse sinónimo de maturidade emocional. Mas será mesmo?

Se observarmos a vida com honestidade, percebemos rapidamente que confiar não é uma opção — é uma condição da existência humana.

Todos os dias, conscientemente ou não, confiamos.

Os operadores de recolha de resíduos confiam no motorista enquanto seguem nos estribos, em movimento, entre paragens, trânsito e imprevistos. Confiamos que quem vem no sentido contrário respeitará a linha contínua. Confiamos que o médico sabe o que faz, que o alimento que compramos é seguro, que o prédio onde entramos não vai ruir.

A confiança está tão entranhada na vida quotidiana que só a notamos quando falha.



A confiança como base invisível da sociedade


Do ponto de vista sociológico, a confiança é considerada um pilar estrutural das sociedades funcionais. Niklas Luhmann, sociólogo alemão, defendia que a confiança reduz a complexidade do mundo. Sem ela, viveríamos paralisados, a avaliar cada passo como uma ameaça potencial.


Já a psicologia mostra-nos que a confiança não é ingenuidade, mas sim um mecanismo adaptativo. O cérebro humano foi desenhado para cooperar. Estudos em neurociência social demonstram que a cooperação ativa circuitos associados à segurança, pertença e bem-estar, enquanto a desconfiança constante mantém o sistema nervoso em estado de alerta crónico.


Ou seja: desconfiar o tempo todo tem um custo emocional e fisiológico real.



O erro não está em confiar. Está em não saber como confiar.

Aqui reside um ponto essencial do meu trabalho em life coaching: não se trata de confiar cegamente, mas de confiar com consciência.

Confiar não é entregar o poder pessoal. É alinhar perceção, limites e responsabilidade.


Muitas pessoas dizem “não confio em ninguém”, quando na verdade o que viveram foi:

  • traição sem integração emocional,

  • expectativas não comunicadas,

  • ausência de limites claros,

  • ou desconexão da própria intuição.

A ferida não vem da confiança. Vem da quebra de alinhamento interno.



Confiança, responsabilidade e FLOW

Na metodologia FLOW, a confiança está intimamente ligada ao fluxo da vida.


Quando confiamos:

  • o corpo relaxa,

  • a mente clareia,

  • a energia flui.


Quando não confiamos:

  • contraímo-nos,

  • controlamos,

  • resistimos.


Mas atenção: confiar não é abdicar da responsabilidade pessoal. Tal como o operador confia no motorista, mas mantém o corpo atento, firme e presente. Tal como confiamos no trânsito, mas continuamos a olhar, a antecipar, a agir.


A verdadeira confiança é ativa, não passiva.



Confiar é um treino interno

Confiar começa sempre dentro.

Confiar na própria capacidade de lidar com o que vier. Confiar na leitura dos sinais. Confiar que, mesmo quando algo falha, há aprendizagem, integração e crescimento.

Quando uma pessoa fortalece a relação consigo mesma, a confiança nos outros deixa de ser um risco e passa a ser uma escolha consciente.

E isso muda tudo:

  • nas relações,

  • no trabalho,

  • na forma como habitamos os espaços,

  • na forma como conduzimos a vida.



Talvez a pergunta certa não seja “em quem posso confiar?”

Mas sim:

“Estou alinhada comigo ao ponto de confiar no meu discernimento?”

Porque quando há alinhamento interno, a confiança deixa de ser um salto no vazio — e torna-se um passo natural no caminho.

E a vida, essa, continua a pedir-nos todos os dias exatamente o mesmo:


 presença, consciência… e confiança suficiente para seguir em frente.


Em flow,

Paula

 
 
 

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